English Español

Descobrir a Região > Património Cultural

Fátima – Lenda de S. João na Beira-Baixa

Da presença muçulmana, o fenómeno mais estranho é o do culto a Fátima, pelos pastores, mantido desde a expulsão dos Mouros e chegada dos primeiros reconquistadores cristãos às terras de Manteigas. Autores do séc. XVII e do séc. XIX, falam da devoção dos pastores serranos de Manteigas à princesa moura Fátima, que está encantada na Serra e os protegia sempre que eles estavam aflitos e a ela recorriam. O nome de Fátima conserva-se na toponímia duma montanha, em Manteigas, e no princípio deste século, e segundo testemunhos, a devoção ainda se mantém. (www.terrasdabeira.com)
O montante cristão não dava repouso à cimitarra muçulmana.
Mais fortes os Nazarenos, ou mais felizes, levaram de roldão os sequazes de Mafoma. Repelidos de combate em combate, perseguidos sem mercê, era-lhes impossível transportar todas as riquezas adquiridas durante séculos. Recorriam então ao expediente de as ocultar nos sítios, que julgavam mais adequados.
Principia aqui a dar largas à sua expansibilidade a imaginação popular. Esses tesouros eram, no dizer do povo, guardados por mouras encantadas.
O rei agareno de Manteigas tinha uma filha chamada Fátima. Era formosa como uma visão do paraíso prometido por Maomé e o pai estremecia-a como a fibra mais sensível da sua alma. Os cavaleiros cristãos das vizinhanças empregavam os maiores esforços para se apoderarem dos seus estados, cativarem a filha e assenhorarem-se dos seus bens e jóias.
O rei quis resistir, abrigado com as muralhas da cidade, mas como as hostes assaltantes eram em número descomedido e a resistência seria uma loucura, resolveu fugir pelos carreiros mais escusos da serra, levando a filha e o resto das riquezas, que ainda não tinham sido postas em lugar seguro.
Andaram, andaram, durante todo o dia, mas ao anoitecer Fátima não podia dar mais passada, morria de cansaço. A conjuntura era temível. Como socorrê-la naquele descampado, no sítio mais agreste da serra? De súbito, na sua frente, abre-se um esplêndido caminho todo florido, calçado de pedras finíssimas, e ao cabo dele, um foco de luz que iluminava tudo como se o Sol brilhasse no Zénite.
Era como um milagre operado pelo Profeta, a salvação que surgia a alguns passos. Então o rei, a filha e a comitiva sentiram a esperança renascer-lhes no coração. Seguiram a estrada que se lhes abria na frente e entraram num palácio resplandecente, tão cheio de coisas magníficas que todos se quedaram deslumbrados.
O que depois se passou nunca ninguém o soube, mas nos dias imediatos viram os serranos subir e descer pelas encostas diversos pastores que ninguém conhecia na localidade. Demoraram-se algum tempo por aqueles sítios e faziam repetidas visitas ao Coruto de Alfátema, nome por que se designava o cabeço. Um belo dia desapareceram e nunca mais ninguém lhes tornou a pôr a vista em cima.
Esses pastores eram mouros disfarçados, e foi por indiscrição deles que se soube que uma boa fada, madrinha de Fátima, a prometera guardar na sua vivenda encantada, sempre jovem e formosa até que os fiéis sectários do Alcorão conquistassem de novo Portugal.

Esta crença estava arreigadíssima no ânimo dos camponeses, e durante os séculos XIl e XIII era enorme o pânico, na persuasão de ver chegar os esquadrões mouriscos em busca da linda Fátima.
A lenda ainda tomou mais corpo no espírito crédulo dos simples aldeões quando, poucos anos depois de os Cristãos tomarem Manteigas, se deu o seguinte acontecimento:
Uma pobre mulher, das mais miseráveis da localidade, teve de passar, de madrugada, no dia de S. João, pelo Coruto de Alfátema. Sentindo-se fatigada, sentou-se num dos muitos penhascos que por ali abundam para descansar e comer algumas côdeas de pão que trazia.
A boroa, dura de muitos dias, quase não se podia tragar. Quando a desventurada dizia mal à sua vida por ter de ingerir um tão pouco alimento, viu a seu lado um vasto estendal de figos secos.
Comeu alguns, e, lembrando-se dos filhos que choravam longe, encheu deles uma cesta que levava.
Dirigiu-se lépida para a choupana, gozando antecipadamente da alegria que ia proporcionar às crianças. Qual não foi, porém, o seu pasmo, quando, ao destapar a cesta, em vez de figos se lhe deparam diamantes e reluzentes moedas de ouro.
Estava rica. Mas a mendiga que minutos antes dera graças a Deus por ter só pão para saciar a sua fome e a dos seus, sentiu mordedura da ambição. Um cabaz de pedras preciosas e de boas dobras de ouro já era pouco para ela! Queria ser riquíssima.
Volta apressada ao Coruto. Mas o Sol, que subira de todo no horizonte e que refulgia agora no imenso céu sem nuvens, arrancava da superfície polida dos fraguedos miríades de cintilações ofuscantes. O encanto quebrara-se, os figos tinham-se sumido.
Presa de uma grande aflição e desespero, arrepelando os cabelos, ia para blasfemar, quando ouviu uma voz suavíssima cantar:
Era teu tudo o que viste;
Agora tornaste em vão!
Não passes mais neste sítio
Na manhã de S. João.
Não te perdeu a pobreza,
Pode matar-te a ambição.
Texto de Eduardo Noronha – www.joraga.net

voltar 

Promotor

Co-financiamento

    • imagem: inature.jpg
    • imagem: provere.jpg
    • imagem: logos.png